Angiossarcoma Pericárdico Primário Complicado por Pericardite Constritiva
Guilherme Augusto Reissig Pereira, Maiane Maria Pauletto, Anna Paula Tscheika, Fabrício Michalski Velho, Luciano Folador, Guilherme Augusto Reissig Pereira, Maiane Maria Pauletto, Anna Paula Tscheika, Fabrício Michalski Velho, Luciano Folador

Abstract
Genes, proteins, chemicals, diseases, species, mutations and cell lines named across the full text — each resolved to its canonical identifier and authoritative record.
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Figura 1
Figura 2
Figura 3
Figura 4
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Taxonomy
TopicsCardiac tumors and thrombi · Vascular Tumors and Angiosarcomas · Pericarditis and Cardiac Tamponade
Introdução
Tumores cardíacos malignos secundários são metástases de tumores primários e 22-132 vezes mais comuns que tumores cardíacos primários (TCP).^ 1
3 ^ Os TCPs são raros, com uma prevalência na autópsia estimada de 0,001-0,03%,^ 4 ^ e majoritariamente benignos.^ 5 , 6 ^
Entre os TCPs, o angiossarcoma cardíaco é um subtipo raro de sarcoma de tecido mole, e o tumor primário maligno mais comum do coração.^ 5 ^ Os angiossarcomas consistem em canais vasculares de formato irregular, revestidos por células epiteliais anaplásticas, com grandes áreas de necrose e hemorragia.^ 1 ^ O angiossarcoma cardíaco é um tumor agressivo com uma alta taxa de recorrência local de disseminação sistêmica.^ 7 ^ Sem ressecção cirúrgica, a sobrevida global dos pacientes é de 3,8 (DP 2,5) meses.^ 1 ^ O tumor cresce e se infiltra rapidamente, o que pode levar a manifestações clínicas incluindo ruptura do miocárdio, derrame pericárdico, tamponamento cardíaco e pericardite constritiva (PC).^ 5 ^
Em países de alta renda, a tuberculose é a principal causa de PC, enquanto em outras partes do mundo, causas virais ou idiopáticas continuam a etiologia mais comum. Em uma minoria dos casos, uma doença maligna cardíaca é identificada como a etiologia de PC.^ 8 ^
Relatamos um caso de angiossarcoma pericárdico complicado por PC e apresentamos uma revisão da literatura relevante.
Descrição
Um homem de 46 anos, branco, com hipotireoidismo, diabetes tipo 1, vitiligo, e tumor de células germinativas não-seminomatosas aos 24 anos de idade, apresentou-se com dor retrosternal, dispneia aos esforços moderados, e sudorese noturna por um mês. O exame físico revelou taquicardia, taquipneia, pressão arterial normal, pressão venosa jugular aumentada, sons cardíacos normais, e sons respiratórios vesiculares diminuídos em base pulmonar.
Exames laboratoriais mostraram hemoglobina de 9,3 g/dL, contagem de leucócitos de 9500 leucócitos/mm^3^, neutrófilos 72%, plaquetas 624 000/mm^3^, proteína C reativa 23 mg/dL, creatinina 0,9 mg/dL, troponina 22 ng/mL, porção N-terminal do pró-hormônio do peptídeo natriurético do tipo B (NT-pro-BNP) 2750 pg/mL, anticorpo antinuclear negativo, fator reumatoide negativo, e concentrações normais de complementos C3 e C4. O eletrocardiograma mostrou taquicardia sinusal, baixa voltagem, e anormalidades de repolarização não específicas. Ecocardiograma transtorácico (ETT) bidimensional revelou grane derrame pericárdico.
O paciente foi submetido a uma pericardiocentese, com remoção de 650 mL de líquido. Houve recorrência de derrame pericárdico e tamponamento cardíaco dentro de um curto período e, por isso, realizou-se uma janela pericárdica, com drenagem de 900mL de líquido com sangue. A análise do líquido mostrou teste negativo para adenosina desaminase, culturas negativas, e a citologia deu negativa para células malignas. Uma biópsia do pericárdio também não mostrou evidência de malignidade.
A tomografia por emissão de pósitrons/Tomografia Computadorizada usando fluorodesoxiglicose (^18^F-FDG-PET/TC) revelou espessamento difuso dos folhetos pericárdicos com formato irregular, realce com contraste, e atividade hipermetabólica com um valor de captação padronizado máximo (SUVmax, standardized uptake value ) de 12,8 ( Figura 1 ). Em seguida, o paciente apresentou aumento da pressão jugular venosa, edema nos tornozelos, e dispneia progressiva. A ausculta pulmonar revelou ausência de sons respiratórios vesiculares na metade inferior de ambos os pulmões. A TC cardíaca mostrou grande derrame pleural bilateral, espessamento septal interlobular, e significativo espessamento nodular dos folhetos pericárdicos ( Figura 2A ). O exame de Ressonância Magnética Cardíaca (RMC) confirmou extenso realce por gadolínio no pericárdio ( Figuras 2B-C ). Um novo ETT mostrou derrame pericárdico leve e presença de uma massa pericárdica ecogênica ao redor dos ventrículos, estendendo-se próximo às válvulas atrioventriculares ( Figuras 3A e B e vídeos 1
2 ). O ETT também revelou a presença de "annulus reversus" e movimento atípico do septo interventricular, sugestivo de PC ( Figura 4 ). O paciente recebeu furosemida e foi submetido à drenagem pleural bilateral e pericardiectomia. Análise patológica do pericárdio revelou positividade imuno-histoquímica para CD31, ERG, e D2-40, e um índice de proliferação Ki-67 de 90%, consistente com angiossarcoma pericárdico.
Tomografia por emissão de pósitrons/Tomografia Computadorizada usando fluorodesoxiglicose (18F-FDG-PET/CT) revela atividade hipermetabólica do pericárdio, com um valor de captação padronizado máximo (SUVmax) de 12,8 g/mL.
Tomografia computadorizada cardíaca pós-contraste (A), ressonância magnética cardíaca com realce tardio de gadolínio: corte eixo curto (B) e corte quatro câmaras (C) mostrando realce difuso e espessamento nodular (setas brancas) do pericárdio com derrame pericárdico leve.
Ecocardiograma Transtorácico (ETT) corte eixo longo (A) e corte apical quatro câmaras (B) mostrando uma massa pericárdica ecogênica (setas brancas) ao redor dos ventrículos, e se estendendo até próximo às válvulas atrioventriculares; ETT em corte quatro câmaras (C) e duas câmaras (D) revelando espessamento do pericárdio anterior e apical de 15mm, com nodulação (setas brancas).
Sinais ecocardiográficos de pericardite constritiva; Ecocardiograma Transtorácico (ETT) em corte quatro câmaras mostrando movimento anômalo do septo interventricular (" septal bounce ") (A-B); Doppler tecidual do anel mitral septal (C) revela uma velocidade anular mitral diastólica precoce (e’) medial de 14,7 cm/s, a qual é mais alta que a velocidade lateral e’ de 7,8 cm/s (D), caracterizando annulus reversus.
O tratamento foi iniciado com paclitaxel 80 mg/m^2^, que levou à melhora clínica e remoção dos drenos do tórax e descontinuação do oxigênio. O paciente recebeu alta com uma r prescrição de furosemida e bisoprolol.
Dois meses e meio depois, o paciente foi readmitido no hospital por dispneia a mínimos esforços. O exame de imagem revelou um derrame pleural loculado e um nódulo no lóbulo inferior do pulmão direito, sugestivo de metástase. O ETT mostrou sinais de PC e espessamento do pericárdio a 15mm ( Figuras 3C-D e vídeos 3
4 ). Devido ao alto grau de invasão, dificuldade em se definir o plano de clivagem, e à condição clínica do paciente, não se decidiu por cirurgia. A dose de furosemida foi aumentada, realizou-se drenagem pleural, um ciclo por mês. Infelizmente, o paciente continuou a apresentar piora clínica e disfunção ventilatória. O paciente passou a ser mantido em cuidados paliativos, e foi a óbito oito meses após o início dos sintomas ( Figura 5 ).
Linha do tempo do caso apresentado.
Discussão
O angiossarcoma cardíaco afeta preferencialmente homens jovens, com um pico de incidência na quarta década de vida.^ 1 ^ Sua origem é atrial em 75% dos casos, tipicamente preenche essa câmara e então infiltra no pericárdio, válvula tricúspide, ventrículo direito, e artéria coronária direita. Em 47% a 89% dos casos, metástases ocorrem mais comumente nos pulmões (22-55%), mas também no fígado, ossos, cólon e cérebro.^ 1 , 9 ^ Os sintomas iniciais são inespecíficos,^ 4 , 5 ^ e as manifestações mais comuns são dispneia (50-80%), derrame pericárdico (29-56%), e dor torácica (10-39%).^ 9 ^ Sintomas constitucionais também podem estar presentes, incluindo perda de peso e fadiga relacionada à anemia.^ 7 ^
A incidência de TCPs aumentou na última década.^ 6 ^ Parte desse aumento pode ser atribuída a um melhor acesso e avanços nas modalidades de imagens.^ 1 ^ O ETT é geralmente a primeira modalidade de imagem utilizada, que permite a avaliação do tamanho, da localização e da mobilidade do tumor, e do envolvimento do pericárdio. A RMC é útil por possibilitar uma avaliação multiplanar da massa e seu potencial envolvimento com as câmaras cardíacas e o pericárdio.^ 1 ^ Similar à RMC, a TC cardíaca fornece informações sobre as margens das lesões e sua relação com estrutura extracardíacas.^ 1 ^
O escaneamento com ^18^F-FDG-PET/TC é útil por investigar tumores cardíacos avaliando-se sua atividade metabólica, que se baseia tipicamente na avaliação da média do SUVmax. Em um estudo com 20 pacientes que foram submetidos ao escaneamento com ^18^F-FDG-PET/TC, a técnica demonstrou uma sensibilidade de 100% e uma especificidade de 92% para diferenciar massas cardíacas malignas de massas cardíacas benignas. A SUVmax foi mais alta nos casos de malignidade (13,2 ± 6,2 g/mL) que nos casos não malignos (2,3 ± 1,2 g/mL) (p=0,0004).^ 10 ^ A SUVmax observada nos casos malignos é similar à encontrada em nosso caso: 12,8 g/mL.
A raridade do angiossarcoma cardíaco torna difícil a padronização dos algoritmos de tratamento.^ 7 ^ A maioria dos estudos são séries de casos retrospectivos ou relatos de casos envolvendo populações heterogêneas.^ 5 ^ Os melhores desfechos de longo prazo são obtidos com ressecção cirúrgica com margens negativas, mas isso é geralmente impedido pela presença de metástase e proximidade do tumor aos condutos vasculares. Quando a ressecção completa é possível, os pacientes geralmente sofrem recorrência local. A quimioterapia neoadjuvante, combinada com a remoção do tumor pode promover uma vantagem de sobrevida pela redução do tamanho do tumor.^ 1 , 7 ^
O angiossarcoma cardíaco metastático é tratado com quimioterapia sistêmica. Antraciclinas estão associadas com uma taxa de resposta de 16-27% e uma sobrevida mediana de até 12 meses.^ 4 ^ O paclitaxel também é comumente utilizado devido às suas propriedades antiangiogênicas. No estudo ANGIOTAX, o paclitaxel foi associado a uma sobrevida mediana de oito meses nos pacientes com angiossarcoma não ressecável.^ 11
13 ^ O interesse na terapia anti-Fator de Crescimento Endotelial Vascular (VEGF) levou a ensaios clínicos de fase I/II com bevacizumab, porém, sua adição à quimioterapia não melhorou significativamente a sobrevida livre de progressão.^ 4 , 14 ^
A doença cardíaca maligna é uma etiologia rara de PC. A PC é crônica e progressiva na maioria dos pacientes, que tipicamente apresentam sinais de insuficiência cardíaca direita que potencialmente causa dispneia por derrame pleural.^ 15 ^ O ETT permite a detecção dessa condição. O pericárdio constritivo limita o volume cardíaco. Durante a inspiração, o ventrículo direito não consegue se expandir para acomodar o retorno venoso aumentado e, em vez disso, seu volume aumenta e invade o espaço ventricular esquerdo devido a um desvio no septo ventricular. Por outro lado, durante a expiração, o septo retorna em direção ao ventrículo direito. Esse fenômeno, conhecido como o movimento anômalo do septo interventricular conhecido como " septal bounce ", tem uma sensibilidade de 93% para detectar PC. Outro importante achado ecocardiográfico é annulus reversus , em que a velocidade e’ mitral medial precoce (e’) é mais alta que a velocidade e’ lateral.^ 15 , 16 ^
Embora a terapia diurética reduza sintomas, ela não modifica o curso natural da PC. O único tratamento definitivo é a pericardiectomia cirúrgica, apesar da alta mortalidade perioperatória.^ 15 ^ Em um centro de grande volume, 89 pacientes com PC foram submetidos à pericardiectomia, com uma taxa de mortalidade perioperatória de 7%.^ 17 ^
Em resumo, apresentamos um caso de angiossarcoma cardíaco complicado por PC, com um desfecho clínico desfavorável apesar da pericardiectomia e da quimioterapia. O desafio em tratar esse tumor está na sua raridade, os estágios tipicamente avançados no momento do diagnóstico, seu curso agressivo com alto potencial metastático, e o risco de recorrência. Quando viável, a ressecção cirúrgica completa é a melhor opção paliativa, mas ela raramente oferece uma chance de cura.
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